A Dama dos Olhos Misteriosos
- eloafbrandao
- 21 de jan. de 2021
- 2 min de leitura
Nos confins da Terra, a Casa Tenebrosa repousava, vazia desde os tempos imemoriais, ecoando seus rangidos estranhos e o crocitar dos corvos. Ela se localizava atrás de um grande abeto em uma estrada secundária longa, sinuosa e escura, encoberta por árvores arqueadas de ambos os lados e neblina densa.
A Casa era mobiliada com luxo, repleta de quartos e escadarias secretas, além do adorável jardim ao lado da fonte. E dentro dela, a Dama dos Olhos Misteriosos orbitava.
Thomasine Fair, era esse seu nome. Uma moça alta, esguia, reservada e dona de uma beleza gélida como a de uma princesa, com cabelos pretos presos em duas tranças grossas que chegavam até os pés. Ela tinha rosto esculpido, um nariz grego elegante e olhos grandes, negros e aveludados... olhos vazios... olhos cruéis... olhos assombrados, repletos de remorso pelos corações que partira.
A Dama dormia chorosa em uma cama de madrepérola com um dossel de veludo púrpura, e tinha sempre a companhia de seus elegantes cães na sombria e majestosa mansão. Pois ela jamais saía de lá; exceto, talvez, para ir ao jardim, onde a solidão parecia ainda mais arrebatadora.
A cada semana, a charmosa e cruel Thomasine retorcia as mãos delicadamente alvas conforme passeava por entre suas roseiras na calada da noite, ansiosa. Ela esperava a alma gêmea que desenhara e havia aprendido a amar tarde demais, enquanto arrastava pela grama as saias longas e escuras de veludo. Usava também um espartilho dourado e grande brincos de pérola, sempre bonita e sempre atenta... esperando... esperando... esperando ouvir a música longínqua de uma harpa.
Só que não seria capaz de ouvi-la enquanto fosse cruel, enquanto seu amado não viesse e a perdoasse. A Dama dos Olhos Misteriosos estava fadada a passar o resto da vida em meio às sombras e mistérios, até que o verdadeiro amor viesse para libertá-la.
Então, se arrependeria da crueldade de outrora e estenderia as belas mãos para ele, enfim abaixando a cabeça em orgulhosa submissão. Eles se sentariam ao lado da fonte e trocariam votos. Em seguida, ela o seguiria rumo às colinas longínquas para além de seus cumes violetas e ambos viveriam felizes para sempre.
Mas isso, jamais aconteceu.
Certa noite no jardim, sob os raios suaves e prateados do luar, Thomasine deu-se conta de que o mundo era amplo; um campo vasto de esperanças e medos, de sensações e excitação, apenas aguardando aqueles que tivessem a coragem de ir adiante para buscar o sentido real da vida em meio aos seus perigos. Deu-se conta de que ela, e apenas ela, tinha o poder de definir seu destino, e que a Casa Tenebrosa já a havia aprisionado por tempo demais.
Ela precisava partir.
Rumo às colinas longínquas para além de seus cumes violetas, ela se foi. Sozinha, mas não solitária. Não mais. Thomasine jamais havia sido cruel, e perceber isso foi o primeiro passo para que pudesse colocar às claras quem era realmente. Só então, se assim desejasse, seria feliz tendo outro amado. Porém seu amor verdadeiro já havia libertado-a, na noite em que deixara para trás a Casa Tenbrosa e abrira as portas para a felicidade.
Eloá Faria Brandão
14.08.2020





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